
TEMÁTICA
Proposta e organizada por discentes do Curso de Licenciatura em História, com apoio de docentes da Unidade Acadêmica de Ciências Sociais, a XIV Semana Nacional de História da UFCG/CFP parte do pressuposto da necessidade de continuação do evento já inaugurado em 2009 pelos estudantes do referido curso. Principalmente por compreender que essa cultura possibilita interações proveitosas entre professores, discentes e outros profissionais da área de Ciências Humanas do Centro de Formação de Professores (CFP/UFCG) e de público externo, visando uma construção dialógica de conhecimento, bem como, uma troca simbólica das diversas e inúmeras vivências cotidianas dos sujeitos envolvidos nessa seara do saber.
Em decorrência do sucesso da XIII Semana Nacional de História, esta retorna para sua 14ª edição propondo mais uma vez a nacionalização de sua temática, uma vez que as discussões que pretende-se abordar se expandiram de maneira a necessitar uma amplificação da delimitação territorial, sobretudo por carecer de referências acadêmicas próximas a localidade desse Centro.
Nesse sentido, a presente versão do evento propõe diálogos dentro da temática “Gênerodissidências”: Comunidade LGBTQ+ latinoamericana sob a ótica interseccional, objetivando discutir questões que concernem às problemáticas associadas aos: binarismo de gênero e suas consequências, retratando a masculinidade e a feminilidade como fatores essenciais de análise para essas discussões; as formas de viver e manifestar sexualidades diversas do padrão heteronormativo, compreendendo esse campo enquanto sujeitador também de identidades dissidentes; e as performáticas “estranhas” ao dito “cânone” identitário. Nessa lida, abordarão-se essas questões sob a ótica analítica da interseccionalidade, compreendendo-as enquanto motivos plurais de opressão.
Sendo assim, pensando como Foucault (1987), que retrata a moralidade (questionada por esses modos dissidentes de expressar as sexualidades) enquanto um elemento central no processo de indução dos pensamentos binários, da austeridade sexual e das lógicas de gênero sob um caráter prisional que, por sua vez, tendem a destituir a humanidade de certas identidades, propondo experiências de subsistência para a população que não se identifica com as possibilidades de existir estabelecida pelos aparatos regulatórios da norma, Louro (1997) elucida que há uma dinâmica de escolarização dos corpos, que, apesar de referir-se primordialmente à escola, não significa o aprendizado de questões convenientes à formação sob os aspectos da liberdade e da igualdade, ao contrário, a referida autora afirma que existe uma tentativa subconsciente e constante de lecionar as normativas de gênero dentro da escola, bem como de caracterizar os alunos em favor dessas propostas.
Sob essa perspectiva, é evidente que a mentalidade que se constrói sobre as populações que não seguem a norma proposta pelo ideal criado acerca do seu gênero, será escolarizada para o fazer e reprimida quando não o fizer. Ademais, o questionamento desse ideal a ser seguido faz-se ainda mais necessário quando pensado sob uma perspectiva que propõe o rompimento das lógicas hétero-centradas no capitalismo ocidental moderno, ou seja, no corpo como meio de produção e reprodução do sistema através da divisão binária.
Pensando assim, a história das homossexualidades tem se consolidado como um campo de estudo vibrante e essencial para a compreensão das dinâmicas sociais, culturais e políticas do passado (Veras e Pedro, 2014). No entanto, a crescente complexidade das discussões contemporâneas, tanto no âmbito acadêmico quanto no social, exige a criação de espaços dedicados à reflexão aprofundada e à troca de conhecimentos. Este evento surge da necessidade premente de fomentar o diálogo sobre as múltiplas experiências de indivíduos e comunidades não-heterossexuais ao longo da história, com um olhar crítico e renovado.
A produção acadêmica na área tem avançado significativamente, superando abordagens que, no passado, tendiam a homogeneizar a vivência homossexual. Hoje, compreende-se que as trajetórias de pessoas LGBTQ+ são indissociáveis de outros marcadores sociais, como raça, classe, gênero, religiosidade, idade, localização geográfica, entre outros. Nesse sentido, a Interseccionalidade não se apresenta apenas como uma ferramenta teórica, mas como uma metodologia indispensável para uma análise histórica mais justa e precisa. É imperativo investigar como o entrecruzamento dessas identidades moldou formas de sociabilidade, repressão, resistência e produção cultural (Akotirene, 2019).
O olhar da decolonialidade de gênero, proposto por Lugones (2008), demonstra a possibilidade de práticas que não reiteram o aparato regulador do gênero a partir do eurocentrismo, também demonstrado na contrassexualidade, proposta por Preciado (2024), que consiste na contestação do sistema sexo/gênero vigente e enfrentamento deste, pelo pensamento de que as instituições nas quais ele se firma estão falidas, incentivando medidas de manifestação sexual e corpórea que levem em consideração a produção constante de identidades não pautadas em ideais excludentes, tal qual se faz na sociedade atual, principalmente no que concerne à localidade em que o evento será realizado, isto é, o Alto Sertão paraibano.
As discussões atuais na área nos convocam a ir além da história da repressão, embora sem jamais negá-la. Há um movimento crescente para investigar as agências, as redes de afeto, os espaços de encontro e as estratégias de sobrevivência que floresceram mesmo em contextos adversos. Questões como a circulação de saberes, a construção de identidades pré e pós Stonewall, as dissidências de gênero e as manifestações do desejo em diferentes contextos históricos são centrais.
Consequentemente, a XIV Semana Internacional de História revela em seu propósito discutir o conceito de dissidência de gênero e os seus intercâmbios com a sexualidade, a decolonialidade e a interseccionalidade, por entender que a comunidade estudantil do curso de História e de toda a comunidade acadêmica do Centro de Formação de Professores necessita dessas discussões à promoção de uma visão ampliada acerca do que são os conceitos supramencionados e das noções mais críticas no que respeita à sua própria identidade e, também, os alicerces em que essa está ancorada.
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